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segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

Diário de uma feia

 Cada vez que vejo uma rejeição que reforça o quanto a sociedade é injusta e valoriza o que não é tão importante entro na reflexão de qual seria o meu papel neste mundo. Posso escrever de muitas coisas, mas quero trazer pequenas pérolas que mostram como o mundo está errado.

A primeira vez que me dei conta de que tenho problemas de autoestima foi quando percebi que precisava ter um espelho sempre a mão, principalmente para escovar os dentes pela manhã, mas que, mesmo que eu me arrumasse, não via nada do que estava fazendo, apenas no automático. O espelho era usado para ter certeza que não fiquei com algo preso no dente, ou que tirei toda a espuma de pasta da boca. Conferir se havia limpado os olhos direito, ou se meu cabelo estava muito arrepiado e deveria prender diferente, ou passar um creme. Mas não reparava se tinha alguma marca na pele, espinha, as olheiras profundas muito marcadas, até mesmo o olho inchado. Se alguém me perguntasse sobre algo, era quase como uma confissão de não usar o espelho, eu não sei como está o meu rosto.

Anos fazendo isso, não entendia a disputa por um espaço no espelho do banheiro feminino e a necessidade de ir tantas vezes ao banheiro. É claro que frequentei muitos lugares em que os banheiros não têm espelho, ou o que tem não ajuda muito. Mas a verdade é que pra mim nunca foi um hábito me aproveitar deste recurso, ou procurar por um. 

Um determinado dia, numa conversa de amigas, percebi o que fazia, que para mim era normal se comportar desta forma, mas que a maioria das mulheres não faz isso. E entendi que eu sempre seria da classe das feias.

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Mudando de Vida

Não interpretem mal. Não, eu não estou me mudando. É só uma reflexão sobre as mudanças de vida.
Quando eu comecei a publicar sobre a minha vida, eu só queria ter alguns registros das minhas leituras. Foi um momento da minha vida que eu queria ler tudo que eu visse pela frente. E apesar de eu continuar amando ler, mudei muito a maneira com que eu faço as minhas leituras. Neste momento, a escolha das minhas leituras é no sentido de desobstruir as minhas obrigações, sejam as listas de leitura, sejam os livros que eu não pretendo reler um dia e estão parados na minha estante. E estou longe de me livrar desta preocupação.
No segundo momento, eu comecei a tentar acumular as experiências que eu julgava apropriadas. E quase tudo que eu publiquei estava relacionado a metas e coisas que eu queria fazer e cumprir e marcar como minha. Este foi um período intermediário e necessário para a etapa seguinte. Foi um período de ponderação se era o momento certo para partir para outro objetivo. E eu sentia a necessidade de dar por encerrado o período anterior. Eu percebi que essa mudança estava acontecendo quando eu comecei as minhas metas de leituras mas também coloquei outras metas. Também entrei em outros desafios que foram neste sentido.
E o terceiro momento, de tentar simplificar a minha vida, é um pouco mais perto do que eu poderia dizer como o momento atual. Ainda carrego muita coisa que não consegui me libertar da fase das leituras e da fase das metas. Posso dizer que entrei no minimalismo, tentei tirar coisas da minha vida, mudei alguns hábitos e agora estou trabalhando para ter mais tempo livre. Por isso, prefiro dizer que estou tentando simplificar a minha vida. Mas eu vou falar melhor da combinação num outro momento.
Para agora, o que eu fiquei curiosa foi como esta mudança acontece na vida das pessoas. Na maioria vi esta mudança ser despertada pela maternidade/paternidade. Na busca de ter mais tempo com a família e se ver menos sufocado nas atividades de rotina e continuar tendo tempo para si. Vi muitos adotarem estilos de vida para recorrer a outras formas de renda sem depender de um emprego formal, aqui aparecem os digital influensers, coaches, personal alguma coisa, artesão, consultor, free lance... Nada contra estas carreiras, acho que há espaço para tudo, principalmente para quem tem o dom para isso. Mas me espanta a forma como estes tipos de ocupação profissional só apareceu na vida destas pessoas como forma a recorrer num momento em que era necessário ter mais tempo. Algumas vezes nem é por trabalhar menos horas, mas por poder fazer o seu horário de forma mais flexível. Outras vezes é para poder se fazer mais presente em casa sem tantas viagens. 
Não vou mentir que eu não gostaria de ter uma ocupação que me proporcionasse mais tempo em casa e mais tempo fazendo as minhas coisas. E fazer destas preocupações a minha ocupação, melhor ainda. Mas ainda não consigo encarar isso como meio de vida. Tenho a impressão que esta onda vai passar. E eu teria que voltar a batalhar por outro meio de vida depois de uns poucos anos. Apesar de muitos serem contra a reforma da previdência e da CLT, abrir esta possibilidade de outras formas de contrato de trabalho, mais flexíveis, mesmo que seja necessário se aposentar mais tarde, de preferência com possibilidade de reversão seria muito mais proveitoso do que a perda de tantos profissionais qualificados para outras funções menos especializadas apenas por conta da flexibilidade de tempo. E isso é o que mais pesa na minha decisão. Eu tenho uma qualificação bem especializada, e faltam profissionais qualificados. Se eu sair desta função para outra, vão colocar uma pessoa menos capaz e a qualidade do serviço prestado vai diminuir. Será que isso é justo? 
Eu acho que mudar é importante, apesar de a maioria das pessoas ter tanta resistência à mudança. A mudança gradual acaba tendo um impacto menor. Mas no meu caso, prefiro estar aberta à possibilidade de mudança e reavaliar a situação de tempos em tempos para encontrar a melhor oportunidade. Talvez um dia eu mude meu meio de vida, mas até agora, sempre percebo que a situação está mais favorável para o meu plano de vida original. E então eu volto a me concentrar nele ao invés de tentar mudar. Quem sabe um dia eu largo tudo...

domingo, 7 de agosto de 2016

Aliviando a Consciência Pesada

Faz de conta que eu não sou uma pessoa que por tudo fica com a consciência pesada. Enquanto estou fazendo não curto realmente porque fico tentando me convencer que foi a escolha certa, depois amargo um longo tempo com um sentimento de culpa tentando me convencer que foi uma decisão acertada e depois fico tentando achar uma maneira de me convencer que apesar do que fiz não foi um grande mal e posso recompensar. Daí está toda a cobrança que eu me faço para tudo. Por isso pretendo reduzir as minhas preocupações.
Como eu não consigo tirar férias quando eu as deveria e sempre me culpo por não poder dar o descanso que a minha filha merece, passo todo o mês de julho me desdobrando para fazer atividades proveitosas com ela depois da aula e aos finais de semana. Descobri que as outras crianças da escola fazem bem menos coisa e praticamente não têm o que contar mesmo que tenham passado o mês todo sem ir na escola.
Então nos poucos dias que consigo tirar em agosto, tento fazer algo diferente: um passeio, uma viagem, qualquer coisa do tipo. Mas em agosto ela tem aula e é péssimo fazer ela perder aula por um motivo tão esdrúxulo.
Num dos dias que seria esperado que eu estivesse de férias, resolvi deixar ela acordar um pouco mais tarde, assistir vídeo por um pouco mais de tempo, escolher uma roupa um pouco mais inusitada para ir pra escola, e fomos passear na cidade. Passamos numa loja para resolver um problema e depois fomos para o shopping passear. Entramos em lojas, experimentamos sapatos, vestidos e saímos sem quase comprar nada. Almoçamos do jeito que ela quis e ainda ganhou o sorvete que havia pedido. Não fizemos nada demais. Gostaria de ter passado muito mais tempo fazendo muito mais coisa, mas de improviso, era o que dava para fazer a tempo de levá-la para a escola e não perder aula. Depois que ela foi perguntando se ainda era de manhã e se será que as amiguinhas já estavam perguntando cadê ela, eu percebi que era só isso que ela queria: ser uma aluna como as outras que às vezes não vai na aula para aproveitar as férias. Eu já expliquei que o papai ganhava prêmio no trabalho por que não faltava e eu nunca tomei advertência por falta não justificada e isso era muito bom, mas na visão da criança, essa concessão era importante. Quando chegou à escola, a primeira pergunta que fez foi se elas já estavam com saudades dela que não foi pela manhã e se estavam felizes que ela havia chegado. Como essa fase social é importante.
Gostaria de poder fazer mais isso, mas por outro lado sei que não devo permitir que ela aprenda a lição errada. Ela não deve perder as aulas. E se eu tentar fazer de todos os dias especiais, eles passarão a ser normalmente especiais, ou seja, normais.
Quem mais ganhou com tudo isso fui eu. Aliviei um pouco o peso, mas da maneira errada.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

E então nós temos 3

Desde 2012 estou tentando me reencontrar. Muita coisa mudou na minha vida. E finalmente percebo que as coisas começam a entrar nos trilhos.
Muitas das minhas metas estão relacionadas com coisas que eu sempre quis fazer e ainda não fiz ou coisas que eu me propus a fazer e não sei se quero fazer mais. Não deixa de ser uma busca por auto-conhecimento.
É incrível refletir que além disso, tudo o que vem acontecendo me traz novas mudanças.
Desde a gravidez meu padrão alimentar mudou. Depois que nasceu, para corrigir a alimentação abrimos mão de outros tantos alimentos inadequados para criança.
Os móveis da casa tiveram que ser adaptados, os objetos que estão pela casa hoje são mais brinquedos. Vários cantinhos mudaram completamente.
Mas a parte mais maravilhosa de tudo isso foi perceber, ao chegar aos 3, que apesar de poder voltar tudo como era antes, não vejo necessidade de assim fazer.
Eu acho que tive ganhos consideráveis com a alimentação. Ainda tenho vontade de comer um lanche ou um macarrão instantâneo, mas isso não entra mais na minha casa.
Ao abri os maleiros ou o depósito, revejo o que tive que guardar e muita coisa até prefiro dar ou doar.
As roupas que parei de usar por que não são práticas estou tirando dos armários. E até objetos de estimação quase nada representam.
Eu me vejo procurando de tudo isso o que eu quero guardar de lembrança destes primeiros 3 anos. Depois dos primeiros meses, diminuí muito a quantidade de fotos e vídeos. As roupas, objetos e brinquedos, ainda que eu queira guardar tudo, não teria porque se eu não puder aproveitar. E mais, acaba me inibindo a comprar coisas novas e lindinhas que irremediavelmente irei encontrar. E ainda que eu não compre, pode nunca gostar ou aproveitar. (E eu sei o que é ter um armário abarrotado e não conseguir vestir uma criança).
Mas esses 3 anos foram maravilhosos. Tanto as experiências, os aprendizados (meu e dela, uma com a outra) e as pequenas alegrias do dia a dia. Eu ainda sinto o desgaste das noites mal dormidas, as constantes negociações que terminam em birra, castigo e um carinho no colinho, o desafio de fazer uma criança comer e a culpa por não conseguir proporcionar todo o mundo que a criança quer (principalmente a presença do pai e da mãe). Mas tenho orgulho da pessoa que está sendo formada. E vejo que tudo isso está valendo a pena.
Esses foram apenas os primeiros 3, mas já representam muita coisa. Tudo o que mudou, foi para melhor. E todo o crescimento que me trouxe (egoísta de novo) foi valioso e indispensável. Ajudou a pensar primeiro em outro alguém antes da minha vida.
Quero descobrir que daqui a dez anos ainda estarei com esta sensação maravilhosa. Obrigada, meu tesouro!