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terça-feira, 19 de julho de 2016

Sobre os Sapatos a se Usar

A minha vida caminhou naturalmente entre a adolescência e a juventude até que, ao terminar a faculdade e começar a trabalhar percebi que tinha ficado alguma coisa para trás e voltei para a faculdade na esperança de fazer uma pós. Isso não é nada de extraordinário, mas ao invés de mudar o estilo de me vestir de estudante para o estilo social das empresas, voltei para o modo estudante e deixei o modo social guardado. Neste meio tempo engordei e emagreci. (E já estou divagando, vou chegar nos sapatos...) Em 2007, quando voltei a trabalhar, boa parte das minhas roupas sociais ainda cabiam em mim, mas 6 meses depois, não mais. Os sapatos que ficaram guardados, ainda usei por um tempo, mas eu pegava ônibus, tomava chuva, precisava andar bastante... E o protocolo exigia social, sapato fechado e com salto. Comecei a fazer academia, precisei de um tênis. As minhas sandálias "de balada" não dava para trabalhar. As sapatilhas e sandálias de ir para a faculdade que eu poderia usar em casa e aos fins de semana, acabavam guardadas que eu ficava mesmo descalça. E eu fui me virando com o que tinha. Quando precisava jogar algo fora, comprava um item substitutivo do jeito que achava, trouxe um tênis dos Estados Unidos quando viajei, ganhei chinelos em três casamentos que fui. Eu não sabia do que eu precisava, mas comprava o que eu achava que ia resolver meu problema. Algumas aquisições foram boas, outras eu não sei dizer se valeram o uso. Então fiquei grávida, aboli os saltos e não quis pensar em mais nada. Três anos depois, comecei a rever tudo o que tinha e já acabei com um tanto de sapatos.

Não é que os sapatos sejam porcaria, nem que eu tenho pé de gancho e detono em cada uso. Eu sou cuidadosa. Mas eu preciso andar de um lugar a outro e não dá pra ficar carregando sapatilha na bolsa e ir trocando. É o desgaste natural dos materiais, somado ao meu ritmo de andanças e o tempo que ficaram guardados. Uma das botas estava na caixa e o couro (sintético) rachou inteirinho quando peguei para usar. Um dos sapatos aconteceu isso por dentro e foi se desmanchando no meu pé com o suor. Outro perdeu a pastilha do salto (rachou de guardado) e não tinha conserto. Mais um, deu bolha na sola do pé pelo atrito ao andar. E a outra botinha, como prefiro aquelas solas de borracha costuras e bem macias, acabou furando no bico, a parte de maior atrito.

Neste último ano, uma das coisas que acabei organizando junto com as roupas, foram os sapatos. Voltei a usar alguns que estavam parados e descobri um pouco mais sobre o meu estilo. Confesso que pensei em comprar dois para substituir os três que eu descartei, mas creio não ser necessário, acabei ganhando estes dois da mesma pessoa que comprou para si mas não vai usar. Depois lembrei que estes 3 que descartei, comprei no mesmo dia, para trabalhar, na companhia da minha irmã. As escolhas que eu faço quando compro com outra pessoa (principalmente se for a minha irmã) não são escolhas que eu faria se estivesse sozinha. E não quer dizer que não gostei, pelo contrário, gostei bastante. Uma das botas, substituí por um ankle boot. A de cano alto não pretendo comprar outra por enquanto. Principalmente porque agora só tem aquelas over knee. Mas acabei comprando uma de cano médio com salto baixo. E a outra, vou tentar consertar uma vez antes de descartar, mas posso viver sem.

Ainda tenho sapatos parados no meu armário, principalmente sandálias e sapatilhas, mas estou cada vez mais convicta que não posso deixá-los parados que só vão estragar. Estes sapatos que não repus, vou considerar desnecessários. Vou continuar testando e experimentando os sapatos que tenho guardado e usá-los até o fim. Vou substituir numa quantidade adequada, e vou manter estes em uso. Neste caso, a minha preocupação minimalista não está em ter cada vez menos e usar pouca coisa, não está em ocupar pouco espaço. A minha preocupação é não contar com um sapato e tirar do armário para usar para depois ficar descalça na rua. A minha preocupação é não tentar substituir um sapato porque o outro acabou e ficar usando um sapato que eu não sei se eu gosto, porque eu acho que eu preciso e no fim perceber que não tem nada a ver comigo e eu achei que queria.

É um exercício de paciência. Já descartei muita coisa e sei que estou perto da quantidade ideal, mas ainda preciso cuidar um pouco mais. Querem ver um inventário de sapatos? Vou pensar no assunto.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Madame Bovary

Eu não gosto de investigar sobre os livros para que a leitura me surpreenda. O que muitas vezes acaba acontecendo é eu criar uma impressão do livro que não corresponde com a realidade. Algumas vezes é completamente diferente. Mas não que seja uma decepção. Poucas vezes me parece que seja uma impressão ruim.
Os capítulos iniciais me remeteram à "Mulher de Trinta Anos". Esse sim, foi uma surpresa. Nem um pouco como eu imaginava. Mas "Madame Bovary" foi diferente.
A primeira senhora Bovary foi uma mulher ambiciosa que tomou conta de sua vida. Fez o comércio do marido dar o lucro suficiente para criar seu filho e fazer com que este tivesse uma perspectiva melhor. Por influência da mãe, o menino se tornou médico. O Doutor Bovary sempre seguiu as ordens da mãe e quando saiu de casa, a mãe encarregou de que este se mantivesse dominado por outra mulher (uma esposa, mais velha e viúva). A situação mudou pouco tempo depois com o falecimento da esposa. Pela primeira vez, o Doutor Bovary tentou pensar por si, tomar as suas decisões e logo se viu apaixonado pela filha de uma fazendeiro que foi seu primeiro paciente.
Essa pobre moça, órfã de mãe, teve a oportunidade de morar em cidade e estudar num convento. Gostaria de levar uma vida diferente daquela que estava levando na fazenda. E vê na oportunidade de casamento como uma forma de sair daquela situação. E como a Luiza de "A Mulher de Trinta Anos", forma uma perspectiva de casamento que aos poucos a vai decepcionando. Mas diferente da Luiza, não teve quem a orientasse.
Nos primeiros anos, apesar de não estar satisfeita com a vida que leva, a madame Bovary tenta se encontrar na vida de casada. Mas essa Madame Bovary vive a buscar meios para sossegar as frustrações que carrega em sua vida. Se deixa levar pelo cortejo de outros rapazes. Tenta forçar o marido a realizar ações ousadas, para as quais não tem preparo, na expectativa de ter sucesso e fama curando um deficiente. Toma várias decisões baseadas em suas emoções e por consequência passa a se sentir pressionada a adquirir coisas que não precisa, juntando às várias dívidas que também seu marido contrai pelo tempo em que fica doente e ele não pode trabalhar. Mas tudo tem como resultado maiores frustrações e infinitas dívidas. Nunca tentou conquistar a confiança do marido e sempre coloca barreiras de mentiras entre os dois.
Bom, as decisões tomadas pela Madame Bovary são questionáveis. A forma como ela se enterra em problemas e em dívidas é impressionante, mas eu entendo que ela não teve muita orientação. Eu diria até o contrário, ela teve a péssima influência de pessoas invejosas que viram na personalidade fraca do doutor Bovary e na frustração da madame Bovary uma forma de tirar vantagem da situação.
O desfecho, de certa forma pode ser considerado surpreendente.
A minha curiosidade com Madame Bovary está sanada. Não foi uma história que me cativou a ponto de eu querer ler novamente. Tem alguns aspectos sobre a moral que justifica o tanto que ele é contestado e aclamado nas listas de leitura obrigatória. Dá pra tirar uma série de interpretações com relação à essas decisões questionáveis da personalidade. Sei que existem adaptações para esta obra e, se possível, gostaria de assistir.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

A Mulher de Trinta Anos

Como a maioria das mulheres, eu imaginei ler "A Mulher de Trinta Anos" pouco antes de chegar aos 30. Acabei terminando de ler aos 31. Eu não sabia o que esperar. Já havia lido outros livros com personagens mais maduras. Quer dizer, fazer 30 anos não te torna madura, tem muita senhora com mais de 40, 50 e que se comporta como adolescente. Infelizmente conheço algumas. Mas justamente por ter em mente o que seria uma mulher madura, esperei que esta obra de Balzac tratasse da descoberta da maturidade.
A leitura é fácil, na forma de narração na terceira pessoa. Existem algumas passagens de tempo não conectadas. O cenário é Paris na época de Napoleão. Na primeira fase a personagem (Júlia) ainda é uma jovem adolescente com uma visão do amor idealizada e que sonha com o casamento. A época, era comum que as moças casassem com homens mais velhos, que já tivessem mais estabelecidos. Mesmo com o noivo atendendo o ideal de um bom marido que a personagem tinha, desde o começo do casamento ficou a sensação que não foi uma boa escolha. Júlia tentou viver o seu sonho, mas esqueceu que o marido não é um personagem criado por ela.
Na segunda fase, existe uma amargura por conta das frustrações e claramente aparece nos traços da personagem a maturidade adquirida como aprendizado. Apesar da passagem de tempo, em alguns momentos da história se refere a fatos que ocorreram neste período de tempo omitido da narração de forma a preencher as lacunas.
Uma coisa muito valorosa que percebo nesta obra são as possibilidades de diferentes leituras que se pode fazer da mesma situação. Claro que tem muito da sua experiência pessoal nesta interpretação, mas de uma forma geral percebo que mesmo que não seja isso tudo, traz muita reflexão.
Entre eu terminar de ler e conseguir escrever alguma coisa demorou alguns meses. Só agora, com outra leitura que me remete constantemente a "A Mulher de Trinta Anos" consigo entender melhor o que absorvi da obra.
Quando eu vejo a menina que eu era com 20 e poucos anos e a mulher que sou hoje, entendo muito dos conflitos que a personagem enfrenta. Eu tomaria outras decisões, mas felizmente eu tive o bom senso de não querer casar precipitadamente com uma impressão imatura da vida. Sinceramente, creio que muitas vezes o que determina a felicidade conjugal é "sorte" por assim dizer. Cada vez mais vejo as pessoas falando e sonhando com amor e misturam a tudo isso o casamento quando são coisas diferentes. Optar por nunca casar ou casar e não ter filhos não é o fim do mundo. Entrar num relacionamento esperando um casamento está errado e namorar sem pensar em casamento também é bobagem. E o amor? Pois é, e o amor... Já rendeu vários livros.
Bom, o livro não trata da transição. É justamente aí a passagem de tempo mais significativa.
Tem uma personagem, se eu não me engano uma tia do marido, que acaba sendo a chave para orientar a Júlia neste processo de amadurecimento. Muitas vezes é difícil considerar a mãe como o exemplo e até mesmo receber da mãe este tipo de ensinamento. Vejo que muitas vezes não somos preparados para trabalhar os nossos sentimentos. Mas é sempre bom ter uma figura que a inspira para perseguir. A postura e o comportamento da Júlia de 30 anos são muito depressivos.
Eu acabei comprando mais uma obra de Balzac que espero trazer uma outra visão deste processo de amadurecimento da mulher. Espero não me surpreender.